As PEDRAS no caminho

5 03 2009

Último sábado, fomos até a clínica New Life para visitar o Alexandre e realizar uma programação com os demais internos. Chegando lá, em mais ou menos umas 15 pessoas, conseguimos reunir um número grande de internos para darmos início à nossa programação, uma grande vitória, já que normalmente, pelo que vimos e soubemos a maioria não freqüenta as atividades religiosas que ali acontecem. Mas antes do programa começar, avistei o Alexandre, que rapidamente ergueu os braços, demonstrando alegria, e veio me dar um abraço, dizendo que estava com vontade até de chorar. Percebi que estava mais gordinho, com cabelo cortado, barba feita, uma ótima aparência, e fiquei muito feliz.

Mas, como diria o jargão, “nem tudo são flores“. Logo após nos cumprimentarmos, com a programação prestes a começar, Alexandre me chamou para uma conversa particular. Visivelmente alterado, pediu-me para levá-lo embora da clínica comigo naquele dia. “Não agüento mais essa prisão, você tem que me tirar daqui, hoje”. Aquelas palavras tiraram meu chão, nunca tendo passado por situação semelhante, não sabia como agir. Fiquei de conversar com ele depois, visto que a programação já se iniciava.

Durante a atividade, que foi muito abençoada (contarei sobre ela daqui a pouco), cada um de nós pegou dois internos para conversar um pouco e fazer uma oração. Chamei o Alexandre e mais um. “Mauro, por favor, me tira daqui, eu prefiro a rua, se você me deixar aqui, não precisa mais olhar na minha cara, não faça isso comigo”, eram as palavras que eu ouvia. O outro interno que nos acompanhava na atividade pedia para o Alexandre manter a calma, pois era normal sentir aquela compulsão no começo, que ele havia passado por isso. A situação ficava cada vez mais difícil para mim, e nesse momento o Alexandre abordava a cada um de nós, implorando para levarmos ele novamente par as ruas. Chegou a ajoelhar aos pés do Nando.

Pasmo, fui conversar com outros internos, que me informaram que haviam passado pela mesma compulsão e abstinência que o Alexandre estava passando, mas que tínhamos que ser firmes. Marcelo, o dono da clínica, me orientou no mesmo sentido, e com claras palavras disse ao Alexandre que não liberaria sua saída naquele dia, informando-o ainda que ele havia sido interditado judicialmente pela clínica.

O que nos restava naquele momento? Não sou nem familiar do Alexandre, o conheço há pouco mais de um mês. Quem sou eu para restringir a liberdade de uma pessoa, mesmo sendo claro o desejo dessa pessoa se matar? Vários questionamentos me assaltavam a mente, então comecei a orar, olhei para a Thais ela já estava orando, e acho que cada um ali deve ter feito sua oração silenciosa “Senhor, nos guie, e se for da Sua vontade, acalme o Alexandre”. A oração foi atendida, e aos poucos a compulsão do Alexandre foi baixando, e ele pareceu controlar de novo sua abstinência, mas aí, já era hora de ir embora.

Pedindo incessantes desculpas, o Alexandre disse que agüentaria ficar ali por dois ou três meses. Até lá verificaremos qual a situação dele.

Esperando encontrar um Alexandre manso, sempre bem-humorado como era quando morava na rua, viciado em crack, fomos surpreendidos por um Alexandre angustiado, sentindo por seus órgãos a necessidade da droga, que a essa altura, já está ausente de seu organismo por 03 semanas. Chantagens emocionais, lágrimas, discursos inflamados marcaram a nossa primeira visita àquele que consideramos nosso primeiro resgatado.

Um detalhe que esqueci de mencionar, no entanto, é que antes de eu encontrar o Alexandre, encontrei um de seus colegas de quarto, com quem já havia me encontrado da primeira vez que visitei a clínica. E ao me encontrar, me abraçou e disse “Estou no quarto com o Alexandre, e ele é um verdadeiro missionário,” ergueu o braço todo arrepiado para mim e complementou “me arrepia até de lembrar as coisas que ele me fala sobre a Bíblia”.

Todos os outros internos nos asseguraram que o Alexandre até ali tinha sido uma pessoa super descontraída, alegre, amigo de todos, e assíduo leitor da Bíblia. Foi nossa presença que despertou nele a esperança de poder suprir a necessidade química de que seu corpo depende, e a crise de abstinência explodiu, tirando-lhe a razão.

Por incrível que pareça, tudo isso aconteceu sem que a beleza da programação com os demais internos fosse afetada. Ninguém parecia perceber o que acontecia há poucos metros, e a mensagem de Deus foi pregada através do testemunho do Vanildo, ex viciado em crack, que freqüenta a igreja do Morumbi. Os momentos de conversa com os internos foram muito abençoados, e pudemos ouvir um pouco sobre a história de cada um, e apresentar o amor de Deus como a única solução para os problemas que às vezes excedem às forças humanas.

Coroada por um lindo hino de louvor cantado pela Ju, a programação foi lindamente encerrada.

Oração, único meio de se lutar contra as forças de Satanás. É disso que o Alexandre precisa. Necessita experimentar a “paz que excede todo o entendimento”, precisa de um milagre para controlar a abstinência. O problema dele é o problema de quase todos os ali internos. Por favor, orem pelo Alexandre o por todos que ali estão. A luta é mais difícil do que eu imaginava, e é preciso um milagre.

Deus abençoe a todos nós.

Um abraço.

Mauro





Alessandra

3 02 2009
Há cerca de um mês atrás conhecemos a Alessandra. Na ocasião passávamos de carro pela rua, em um domingo de sol, quando nos deparamos com uma pessoa caída na calçada, sentindo muitas dores. Percebemos que estava grávida, então paramos para ajudá-la. Todos, inclusive a própria Alessandra, achamos que ela iria dar à luz, o que levou-a a relutar em entrar no carro, pois temia que, no hospital público, iriam lhe tirar a guarda de seus bebês (estava grávida de gêmeos). Não tendo outra opção, e muito menos conhecimentos médicos para realizar um parto, chamamos os bombeiros e a polícia, que se encarregaram de leva-la ao hospital.

Desde então estamos orando pela Alessandra, e no último domingo fomos visitá-la embaixo da ponte do Morumbi, onde mora. Para nossa surpresa aquelas dores que sentia naquele domingo não eram relacionadas ao trabalho de parto, e sim com uma infecação, e ela continua grávida dos gêmeos, agora com uma barriga bem maior do que naquela ocasião. Segundo ela, aquele domingo de dores, cerca de um mês atrás, foi o último dia em que usou crack (talvez em razão de nossas orações), e hoje seu maior medo é que na hora em que for dar à luz, seus bebês lhe sejam tirados, novamente, pelo Estado. Ela já perdeu duas crianças assim.

Alessandra tem 27 anos, possui uma filha de 09 anos, e outra de dez meses as quais moram com sua mãe na favela do Real Parque. Há três anos Alessandra mora sozinha embaixo da ponte do Morumbi. Em sua vida tem a tristeza de haver “perdido” dois filhos, que lhe foram tomados pelo Estado em função de sua precária situação, filhos estes que desconhece o paradeiro. Agora espera mais dois filhos, e vive uma gravidez de alto risco, talvez pelas poucas condições de higiene, e pelo uso de crack durante boa parte da gestação.

Mesmo envolta por tantos dissabores, Alessandra consegue manter um belo sorriso no rosto, uma incomum simpatia e disposição para todas as manhãs, grávida de 06 meses de gêmeros, caminhar da ponte do Morumbi até o bairro de Sto. Amaro para catar latinhas na rua, com o principal objetivo de comprar fraldas e alimentos para sua filhinha de 10 meses.

Alessandra necessita muito de ajuda, precisa de um novo local para morar, pois atualmente vive em meio ao lixo e aos ratos, não possuindo condições de criar dois bebês recém -nascidos ali. Pretendemos ajudá-la, mas não sabemos muito como. Mais importante que isso, ela pareceu desejar ser ajudada, e pretende sair das ruas para poder criar seus filhos. Contamos com as orações dos irmãos para que Deus a ajude e nos mostre a maneira pela qual podemos auxiliá-la em suas grandes dificuldades. Se alguém desejar ajudá-la, de qualquer forma, seja com roupas para bebês, fraldas, ou apenas uma visita, favor entrar em contato através do email maurocatanzaro@gmail.com

Um abraço.








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